A causa dos enjoos nem sempre está no estômago; o cérebro também é culpado

A causa dos enjoos nem sempre está no estômago; o cérebro também é culpado

Ao contrário do que parece, as náuseas e vômitos causados por alguma doença não têm sua origem no estômago. O mal-estar acontece quando o centro do vômito no cérebro é ativado O enjoo ou náusea é a

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Ao contrário do que parece, as náuseas e vômitos causados por alguma doença não têm sua origem no estômago. O mal-estar acontece quando o centro do vômito no cérebro é ativado

O enjoo ou náusea é a vontade ou iminência de vômito. Quando a náusea leva ao vômito, geralmente é acompanhada de outros sintomas, como sudorese fria. É comum que algumas pessoas passem mal em situações específicas, como no carro, durante a leitura em movimento ou em parques de diversão, por exemplo. Essa é uma situação bastante particular.

Tudo acontece no cérebro​

Para que o cérebro entenda se a pessoa está ou não em movimento, ele é auxiliado por três sistemas: visão, ouvido interno (onde está localizado o labirinto, que também ajuda no equilíbrio) e propriocepção (ou cinestesia, que representa a capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo sem utilizar a visão).

Quando um indivíduo lê um livro em um veículo em movimento, o cérebro recebe, da visão e da propriocepção, a informação de que ele está parado (sentado), mas o labirinto envia a informação de movimento, pois dentro dele há um líquido (endolinfa) que se move conforme os movimentos de aceleração, frenagem e curva que um carro faz. E é justamente essa “confusão” do cérebro com informações opostas e simultâneas, que causa o enjoo.

O desconforto experimentado por algumas pessoas no carro, ônibus e outros meios de transporte é chamado cinetose (ou enjoo de movimento, causado por movimentos não habituais do corpo), que se caracteriza por náuseas e mal-estar. Uma forma de amenizar a cinetose é hidratar-se bem e optar por uma dieta mais leve antes de viagens. Medicamentos antivertiginosos e antieméticos também são indicados, mas sob avaliação e prescrição médica.

Outras causas

O mecanismo descrito acima ilustra apenas uma condição específica pela qual a náusea surge. Porém, náuseas e vômitos são sintomas extremamente frequentes e estão relacionados a uma grande quantidade de doenças – tanto físicas, quanto psicológicas. Dado o alto número de situações clínicas nas quais o enjoo se manifesta, apenas ele não é suficiente para fechar um diagnóstico, que depende da análise de muitos outros sintomas associados.

Para se ter uma ideia, o surgimento do enjoo está relacionado a mais de 200 doenças e condições, como eventos neurológicos, do aparelho digestivo, uso de medicamentos, analgésicos opioides, gestação, distúrbios hormonais, distúrbios abdominais, toxinas, infecções do sistema nervoso central, alterações metabólicas, intoxicação por álcool, ansiedade e estresse, entre muitas outras. Quando se torna um evento frequente e repetitivo, pode representar algo mais grave e precisa ser investigado. Tumores cranianos e doenças do labirinto são alguns exemplos.

Quando esse desconforto é fruto de uma condição pontual, como gastroenterite (popularmente conhecida por intoxicação alimentar) ou estresse, o uso de uma medicação sintomática é indicado para o alívio dos sintomas. Ou seja, quadros clínicos específicos são tratados. Essa alternativa, contudo, tem efeito fugaz no caso de doenças mais graves, como problemas neurológicos. Nesses casos, a melhora efetiva das náuseas e vômitos só vai acontecer quando for tratada a doença de base. E a abordagem do tratamento depende diretamente do diagnóstico.

Vômitos de repetição devem sempre ser orientados pelo médico, especialmente em situações agudas, como a própria gastroenterite, pelo risco de desidratação e desequilíbrio dos sais minerais no organismo (eletrólitos). Bebês, crianças e idosos demandam ainda mais cuidados.

Casos especiais

Quimioterapia

O enjoo e vômitos, agudos ou tardios, causados pela quimioterapia são, talvez, os efeitos colaterais mais comuns sentidos pelo paciente que luta contra um câncer. Eles são derivados dos fármacos utilizados no tratamento e, até alguns anos atrás, eram tidos como inevitáveis. Esses sintomas surgem porque a quimioterapia destrói as células cancerosas, impedindo seu crescimento e multiplicação. Durante o processo, porém, o tratamento pode afetar também células saudáveis. Quando certas células saudáveis do estômago são afetadas durante a quimioterapia, o cérebro recebe um sinal e dá início ao processo dos vômitos. Mas esse é apenas um meio pelo qual a quimioterapia manifesta os sintomas. Há medicamentos que podem enviar sinais diretamente ao cérebro, sem qualquer envolvimento das células estomacais.

A ótima notícia é que hoje há uma série de medicamentos antieméticos utilizados para combater esses sintomas, seja antes, durante ou após uma sessão de quimioterapia. A escolha do medicamento e a dinâmica da administração obedecem diretrizes exclusivas para cada caso. Algumas condutas especiais e uma dieta própria no período, bem orientada por profissionais, também são eficientes para evitar ou reduzir a ocorrência de náuseas e vômitos entre esses pacientes.

Gravidez

Náuseas e vômitos na gestação, especialmente no primeiro trimestre, são eventos clássicos, sentidos pela maioria das grávidas, e podem ser controlados com antieméticos. Eles acontecem graças ao aumento da taxa do hormônio progesterona circulante no organismo. Quando dentro na normalidade, os enjoos são bem tolerados pelas gestantes. Mas uma condição, chamada hiperemese gravídica, pode até mesmo tornar a mulher incapacitante nesse período. Na hiperemese, que pode afetar até 2% das grávidas, os vômitos são frequentes e intensos, e nada faz a náusea melhorar, uma vez que os vômitos em excesso inviabilizam o uso de medicamentos. Trata-se da causa mais frequente de hospitalização no início da gravidez, normalmente para tratar a desidratação. Espera-se que, na maioria dos casos, a hiperemese comece a melhorar a partir da 16.ª semana de gestação.

Fontes: Sandra Beatriz Marion, gastroenterologista e professora da disciplina de Gastroenterologia do curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR); Evelyne Cristina Queiroz Lyra, médica do Hospital Israelita Albert Einstein; Instituto Oncoguia. Fonte da matéria: gazetadopovo.com.br

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