A ressurreição do padre Marcelo Rossi

A ressurreição do padre Marcelo Rossi

Aos 50, Marcelo Rossi lança DVD, fala de depressão, fama e ataca mistura de religião e política.

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De batina preta e sapatos tamanho 47 (“Sou um homem de Franca”, diz, em referência aos calçados que rotineiramente precisa encomendar na cidade do interior paulista), o homem de cerca de 1,90 m e voz um pouco rouca se aproxima, fecha os olhos e aperta firmemente a cabeça de quem irá entrevistá-lo. Padre Marcelo Rossi vive em constante evangelização, mesmo que insista em dizer que prefere evitar o proselitismo. A rouquidão, afirma, era um dos efeitos do programa “Momento de Fé”, que comanda de segunda a sábado à meia-noite na rádio Globo e é transmitido do Santuário Mãe de Deus, em Interlagos (zona sul de São Paulo).

O horário inabitual –normalmente, a programação católica é veiculada pelas manhãs– foi uma ideia dos tempos de depressão, quando, insone, assistia aos sem número de programas evangélicos na TV aberta. Rossi tem respostas longas, nem sempre objetivas. O que não é pecado. Meses depois de completar 50 anos –e na semana que Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira brasileira, completa três séculos—, ele lança o DVD “Imaculada”. São, de acordo com a gravadora Sony Music, mais de 20 milhões de CDs e 12 milhões de livros vendidos, além do mérito de “Evangelizador do Milênio", concedido pelo papa Bento 16. “É uma segunda chance que me está sendo dada.”

A vida após a depressão

“Para mim, [depressão] era frescura.” Assim, sem perguntas, padre Marcelo Rossi introduz o assunto que o acompanha desde 2014.

Desde então, engordou, emagreceu, flertou com a anorexia (na foto, em 2015) e, às custas de uma dieta que não inclui medicamentos –ele foi diagnosticado com cirrose medicamentosa, por uso constante de remédios–, voltou à ativa.

“Um grande amigo, que eu tenho como modelo, caiu em depressão. Eu me questionei: ‘Como uma pessoa tão ungida cai em depressão?’ Pra que fui falar isso? Quando fui ver, eu estava em depressão. Entrei [na igreja] por amor, e aquilo havia sumido.”

No DVD “Imaculada”, Rossi afirma que a depressão foi um “presente”. “A música que compus, que é meu hino, chama-se ‘Sonho de Deus’. E ela fala: ‘Não adianta fingir o que não sou/traz de volta o meu primeiro amor’. Foi o que aconteceu comigo: eu perdi o gosto pelas coisas.”

Foram sete meses e 22 dias. O sacerdócio deixou de ser missão e passou a ser profissão, diz. Até que uma rotina de água com limão e caminhadas o devolveu ao que era. "Depressão não teve a ver com falta de fé. Não é frescura. Lidei, tratei e saí."

Nas noites de insônia, o desespero com a TV ligada

No Santuário Nossa Senhora Mãe de Deus, padre Marcelo Rossi executa quase todas as suas atividades –fora, claro, as caminhadas que costuma fazer nas noites. Dentro dele, há um estúdio montado pela rádio Globo em que transmite, de segunda a sábado, à meia-noite, o seu “Momento de Fé”, programa radiofônico que concorre, no mesmo horário, com a grade evangélica da TV.

Quando enfrentava a depressão, o religioso também enfrentou uma crise de insônia. “A pior hora é a meia-noite. Eu nunca tive insônia, mas chegava na cama e o sono imediatamente sumia. Aí virava para o lado, olhava para o travesseiro, e o travesseiro olhava para você.”

As noites em claro o fizeram conviver com a TV ligada. “Tenta ficar sem dormir. Quando chega ao quarto, quinto mês, você apaga, é horrível. Tive que vencer isso.” A vitória, disse, veio da oração.

"Quando ligava a televisão, via cada absurdo. Eu não quero julgar –à medida que eu julgar, também serei julgado. Mas falava ‘não pode ser’. Cada coisa que falavam na madrugada. E eu disse: um dia vou fazer um programa ao vivo, para ajudar as pessoas naquilo que creio, um Deus que é amor, gratuito, você não paga nada... Deus não é comércio, não é barganha"

A teologia da prosperidade, identificada com as igrejas neopentecostais como Deus É Amor e Universal do Reino de Deus, afirma Rossi, “é um perigo”. “Você dá isso, aquilo, como se fosse um comércio. Ei, Deus diz o contrário. Quem quiser me seguir, tome sua cruz. Cristianismo não existe sem sofrimento. E prometi que precisava fazer uma coisa.” A promessa, cumprida, foi o programa.

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O padre e a fama

Não foram os últimos, mas os piores cinco anos da vida de padre Marcelo Rossi vieram logo após o início do sucesso, em 1997. No ano seguinte, lançaria o álbum mais vendido da história do Brasil, “Músicas para Louvar o Senhor”, com 3.328.468 cópias vendidas. Nem Roberto Carlos, nem Xuxa conseguiram isso. Com a pirataria e o serviços de streaming, a marca tornou-se imbatível.

“Foi a perda da minha liberdade”, diz. “É um alto preço. Até mesmo fora do Brasil você vê alguém [fala mais alto]: ‘Padre!’ Acabou a individualidade. Meu modo de ser, por ter vivido o outro lado, ter namorado, eu colocava uma barreira quando sentia algo errado. Vinha uma aproximação, e eu já brecava. Se é uma coisa filial, tudo bem. Eu trabalho muito isso. Não quero e nunca quis perder essa pureza.”

Padre Marcelo Rossi conheceu a fama aos 30 anos, três anos depois de se consagrar padre. Antes, chegou a namorar. “Fiz um teste em Cruzeiro (SP). Eu me apaixonei por Jesus, e veio o chamado. Eu não estava mais namorando e fiz o teste do celibato na minha vida e vi que era aquilo que queria. Eu entrei por amor; se você entrou por renúncia, vai largar o negócio.”

Vida normal? Rossi não passa batido. Pode entrar no supermercado, mas sair não é certo –e ele nem vai saber como.

"A coisa que mais amo não posso fazer: dirigir. Um dia, uma senhora me viu e, desesperada, começou a me fechar. Subi na calçada, podia ter atropelado alguém. Se eu quero almoçar, chego lá: ‘Padre!’. Não tem problema tirar a foto. Se você está comendo, não vai pedir para fazer dedicatória"

Uma experiência anterior ao sucesso, no entanto, tornou-se uma baliza na vida de popstar. Padre Marcelo diz ter visto um jogador de futebol esnobando um pedido de autógrafo em um voo. “Eu vi o modo que essa pessoa tratou. Ele fez a dedicatória, mas com desdém. Sabe aquela vontade de dizer ‘não faz’? Naquilo eu aprendi: você pode fazer 99 coisas; se falhar uma, vai ficar na cabeça da pessoa.”

A dor de ser barrado na visita do papa

Uma das situações que embaraçou o padre Marcelo aconteceu em maio de 2007, durante a visita do papa Bento 16 a São Paulo. Rossi foi barrado na entrada da área reservada para convidados no Campo de Marte, onde o pontífice celebrou a missa que culminou na canonização de Frei Galvão.

Um policial federal disse que a credencial que o religioso portava “não valia nada naquele setor”. Foram dez minutos em pé, esperando uma solução para o problema, sob uma temperatura de 10°C.

"Machucou muito naquela época. Eu fiquei quieto, porque [quem barrou] não tinha culpa. Maldade. O que foi? Um grupo, não sei quem foi e que Deus os abençoe. Se sei, que Deus os abençoe também. Não foi a Igreja. Se o papa tivesse algo contra, jamais daria o Van Thuân"

O Van Thuân foi um prêmio recebido pelo padre e por seu mentor, bispo Dom Fernando Figueiredo, no Vaticano por seu trabalho como evangelizador moderno, por meio de suas missas, DVDs e CDs. O prêmio foi concedido pelo próprio Bento 16.

Em 2014, o UOL publicou que o Vaticano havia investigado o padre por dez anos, após uma denúncia de um religioso brasileiro. A acusação era de desvirtuar as práticas católicas por meio de personalismo e diversas idas às TVs.

“Não sei se é verdade, mas disseram que fui analisado por Roma durante 10 anos. Eu acredito que possa ser verdade por causa do plano do Van Thuân.”

Marcelo Rossi afirma que receber o prêmio foi bom e, ao mesmo tempo, nem tanto. “Quem não for perseguido por causa de Jesus não está servindo o Senhor. Com o Van Thuân, eu relaxei.”

Uma vida em nome de Nossa Senhora

Marcelo Rossi associa etapas de sua vida e de sua família à intervenção da Virgem.

“Deus me permitiu que eu lidasse com muitas pessoas que tiveram acidentes de carro. Eu tive acidente de carro e eu sei o que é isso. Eu tinha oito dias de padre, e uma pessoa me pegou de surpresa. Em vez de frear, acelerei. Acabei com a Chevy. Na época, eu era forte, e quebrei a direção na minha mão. Eu estava com a imagem da [Maria] Imaculada. Foram coincidências providenciais.”

Quando nasceu, em 1967, no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, a mãe esperava parto normal. “E, graças a Deus, não foi”, diz. Um primo médico veio fazer a cirurgia cesárea –o cordão umbilical passava quatro vezes por seu pescoço. “Se fosse parto normal, eu não nasceria. Seria enforcado.”

A mãe também deve a sobrevida no parto ao que o padre chama de milagre. “Minha mãe nasceu morta também, e a enfermeira, que era muito religiosa, percebeu que estava viva. E deram o nome do meio de Aparecida a ela. Ela tinha vergonha até ter contato com a religião e o carinho por Maria.”

Rossi, no entanto, não é a favor de promessas. A Igreja, para ele, vai além disso.

“Nossa relação com Deus é de entrega e amor. É o que a Igreja ensinou durante os séculos. A devoção que a Igreja ensina não é a promessa. Somos nós que fazemos isso.”

Sobre santos, diz que Jesus é o senhor de sua vida. Cita, no entanto, São João Paulo 2º e o carinho enorme que tem pela história de Santa Terezinha do Menino Jesus da Sagrada Face. “Ela descobriu o sentido do amor.”

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